Entre dois sacis de origens diferentes, mas próximas

Pelo título inusitado que escolhi para o livro O Saci de Duas Pernas, muitas crianças e adultos até hoje demonstram estranheza ao tomarem contato com a possibilidade, que a licença literária permite, de poder ‘existir’ um saci com tal característica.

Trouxe o assunto porque muita gente no Brasil segue ritos culturais dos Estados Unidos e costuma comemorar no Brasil o Dia das Bruxas (31 de outubro), que atende em inglês pelo nome de Halloween. A comemoração, em seu sentido espiritual, na verdade é a véspera do Dia de Todos os Santos“. No Brasil, por conta de legislação específica, se comemora na mesma data o Dia do Saci.

Discussões de um lado e de outro, é bom registrar que as figuras de meninos protetores das matas remontam a tempos ancestrais, por exemplo, na cultura indígena brasileira. Quem tratou primeiro dessa questão – e com propriedade – foi o escritor guarani Olívio Jekupé, da Aldeia Krukutu, na região de Parelheiros, extremo sul da capital paulista. Olívio é autor de vários livros, dentre os quais O Saci Verdadeiro (Editora da Universidade Estadual de Londrina – Eduel), publicado no ano 2000.

Em sua obra, Jekupé conta a história de um Saci Indígena, que tem duas pernas, protege as matas e ajuda todos aqueles que pedem socorro na floresta. De acordo com suas pesquisas, o saci negro e de uma perna só veio do processo de colonização, já que os escravos acabaram dando feições próprias ao personagem que existia entre os índios brasileiros. A perna só foi a representação dos castigos e mutilações sofridas pelos negros durante a escravidão.

No geral, a entidade indígena tem poderes mágicos como aparecer e sumir, mas não usa a carapuça (chapéu vermelho) e nem o cachimbo – daí o cruzamento entre as culturas ter produzido figuras semelhantes, mas com características diversas.

A figura do Saci Indígena é a prova de como é possível, por meio da pesquisa e do conhecimento, ampliar nossa visão sobre os principais personagens da nossa cultura. E o Saci, sem dúvida, é uma dos mais conhecidos de todos os tempos, embora o trabalho de popularização do Saci-Pererê, feito a partir das publicações e das criações de Monteiro Lobato, tenha garantido uma expressão ainda maior àquele que todo brasileiro conhece desde pequeno.

Conhecer a versão do personagem da perspectiva da cultura indígena enriquece ainda mais o debate e a nossa cultura.

Viva os Sacis!

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