Mente, olhos, ouvidos e boca viraram essência da vida de artista plástica

Atriz Débora Duboc em atuação no monólogo/Foto: João Caldas/Divulgação

A história da paulista Eliana Zagui, contada no monólogo A Valsa de Lili, vai muito além de comover as pessoas que foram ao teatro ver o espetáculo numa das várias montagens feitas a partir do texto de Aimar Labaki. A intepretação da atriz Débora Duboc faz o espectador percorrer a infância da menina que veio do interior de São Paulo e foi obrigada a passar 43 anos numa cama do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP) por conta da uma poliomielite mal diagnosticada quando ainda tinha menos de dois anos de idade.

É possível ir a vários lugares que Eliana foi apenas com a ajuda da mente, da boca, dos ouvidos e dos olhos dela – seus principais canais de comunicação com o mundo, após ficar tetraplégica e viver ligada a um respirador, cujo apelido virou o título do livro que publicou – Pulmão de Aço – e a partir do qual Labaki escreveu a peça. Essa viagem é entrecortada por episódios de solidão, tristeza, compaixão e alegria junto a amigos e amigas que fez em décadas de vivência no hospital. Da turma hospitalizada por causa de um surto de poliomielite ocorrida no país na década 1970, sobreviveu com ela apenas um amigo, Paulo Henrique Machado, até hoje ´morador’ do HC.

Mas Eliana, a Lili da peça de teatro, na verdade fez da sua vida um exemplo de busca por melhores condições no ambiente limitado da cama de hospital: estudou inglês e italiano, aprendeu a pintar e virou artista plástica, com técnicas de pintura com a boca. A boca, aliás, virou mais um instrumento de trabalho para ELA se comunicar com o mundo exterior, utilizando a internet e as redes sociais. E para escrever o livro no qual conta sua história.

AMIZADES E APRENDIZAGENS – Dentre os principais momentos da peça, o destaque fica por conta das passagens narradas pela atriz sobre a vida de Eliana no hospital, sua convivência com as crianças com quem dividiu o espaço no HC, sua amizade muito próxima com os amigos Paulo, Tânia e Anderson – esses dois últimos, após alguns anos, não sobreviveram aos problemas respiratórios ocasionados pela pólio. E também o aprendizado para continuar encontrando razão para viver. Em dado momento, toca o público a revelação – constante do livro e que o autor da peça reproduziu – feita por ela sobre a vontade de cabo à própria vida. Quando ela diz: “Eu não tinha condição de me matar. Era obrigada a viver”, questionando, de forma indireta, muita gente que tem todas as condições e saúde reclamando de pequenos problemas cotidianos como se fossem o fim.

A peça, de fato, tem o poder de conduzir o público a pensar muito além de uma superação, já que Eliana conseguiu, no começo de 2019, se mudar para uma casa de um amigo no interior de São Paulo, que conheceu pela internet. Seus planos continuam ser os mesmos de quem sonha fora de um hospital: viajar, ir mais lugares públicos, conhecer novas pessoas e divulgar sua história pelo mundo.

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